domingo, 14 de março de 2010

O abandono que gera dependência

Estava refletindo sobre uma situação muito frequente nos hospitais de urgência: o "piti", também conhecido como "peripaque".

O portador de tal mazela é o tipo de paciente mais negligenciado e, ainda assim, frequentador assíduo dos hospitais gerais. Tal paciente dá de cara com o desprezo e falta de paciência dos médicos atarefados e comprometidos com doenças importantes de verdade ali no plantão; sofrem com a falta de atendimento, mesmo quando atendidos. Recebem terapêuticas doses de injeções com água destilada, beliscões e gritos. Além dos reconfortantes prognósticos: "você não tem nada", "é coisa da sua cabeça" ou até um "isso é frescura".

A realidade dos serviços de urgência do nosso país é de superlotação, falta de recursos, péssimas condições de trabalho e remuneração pífia dos profissionais. Esses fatores somam-se dando como resultado a qualidade da assistência prestada a qualquer paciente, mas quando esse paciente é um "peripaque" tais fatores multiplicam-se elevados a potência da falta de empatia. O resultado raramente é tratamento.

...e assim, refletindo, veio-me à cabeça uma passagem do livro Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais por Paulo Dalgalarrondo:

A Histeria conta uma história. O afeto intolerável e a situação conflitante tornam-se inconscientes, através do recalcamento. O vínculo com a consciência se faz através dos sintomas: esconde e insinua a situação conflitante. As manifestações corporais são o retorno do recalcado. A via é simbólica, oposta à via anatômica. O corpo narra, fala, descarrega. O afeto é convertido na qualidade física da manifestação corporal.
O corpo dramatiza como num jogo de mímica, à procura de um decifrador. Corpo simbólico, história, corpo mímica, pedindo e evitando ao mesmo tempo ser desvendado. Não há lesão orgânica. A via é a da escrita. A anatomia é singular, relacionada à história da sexualidade e da vida do paciente. Contudo, o vínculo com a realidade é mantido. E quem a vivencia precisa de ajuda. Que não a neguemos.


2 comentários:

Vanessa Marsden disse...

Muito bom texto. Fico triste de ver que desde que formei nada mudou. As famosas injecoes intramusculares de dipirona/agua destilada continuam, assim como o mal trato e negligencia a estes pacientes. Muito triste ver como os medicos brasileiros nao tem mesmo qualquer formacao em psicologia da saude.
Aos pouquinhos tentamos mudar o mundo, mas 'e dificil lutar contra o estabelecimento todo...

Com os melhores cumprimentos

Anônimo disse...

http://insuranceinstates.com/texas/Abilene/Barber%20Insurance/79606/

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